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25.9.03

Blogdemocracia "off" 

Na próxima semana, estarei de férias. Espero que não ocorram grandes abalos na nossa democracia.
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A razão da força e a força da razão  

Ao contrário do que se possa pensar, os meios militares são indispensáveis como mecanismo de defesa e de segurança. Poder-se-ia julgar que já não há inimigos ou que as ameaças são outras. É verdade que hoje há novas "forças" que põem em causa a estabilidade dos estados. Isso não significa, porém, que já não seja necessário investir em defesa.

O Conselho de MInistros acaba de aprovar o diploma relativo ao projecto vencedor para a adjudicação de dois submarinos para a Marinha Portuguesa. O consórcio alemão, HDW, ao que tudo indica, será a proposta vencedora.

Não me querendo pronunciar sobre as razões da hipotética proposta vencedora, creio todavia que posso afirmar que é particularmente relevante que o executivo tenha tomado esta decisão. É que para um país com 700 km de costa, é vital a existência de meios marítimos. E os submarinos podem funcionar não apenas como uma arma de guerra. Certamente que serão uma útil fonte de dissuasão contra a pesca ilegal, a droga e outras práticas.

Esta foi a melhor forma de honrar um povo de marinheiros. O Barracuda, o Delfim e o Albacora – só este último se encontrava operacional - têm assegurados sucessores.
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Pequenos passos, grandes gestos... 

A Microsoft vai encerrar já a partir do dia 14 de Outubro o seu serviço de canais de conversação em 28 países. Trata-de uma decisão ímpar e que visa proteger as crianças de utilizadores perversos.

Esta medida vai certamente representar um duro golpe em todos os cibernautas que se servem dos "chats" para práticas ilícitas, reprováveis, desumanas. Uma iniciativa a todos os títulos louvável.
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23.9.03

Mundo "inquietante" ou mundo "estimulante"? 

"O mundo caminha mais no sentido da autoridade e menos da liberdade", afirmava ontem uma pessoa que conheci e com quem conversei durante uma viagem de Coimbra a Lisboa. Será que esta afirmação faz todo o sentido?

Provavelmente, só daqui a uma década analisaremos com maior frieza o mundo de hoje. O 11 de Setembro trouxe mudanças. Mas elas já vinham detrás, desde a queda do Muro de Berlim.

Há claramente um choque de civilizações entre o Ocidente e o Islão. O mundo árabe não aceita facilmente a evolução e os passos de Tolerância do Ocidente. O mundo árabe não consegue sequer concretizar a concepção de Montesquieu do poder. O mundo árabe não aceita o desenvolvimento técnico, científico e económico do Ocidente e não se serve deste para se projectar.

Será que estamos a viver o tempo das Cruzadas?

Está a decorrer a 58.ª sessão da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas. Nada de novo vai imanar deste encontro. Os discursos e as palavras bonitas vão cair em saco roto. O líderes mundiais não conseguem compreender a evidência: é preciso repensar o modo como nos relacionamos. A Democracia precisa de ser reinventada. A História depara-se hoje com novas variáveis.

Perante as novas ameaças, parece, pois, inevitável que os estados modernos adoptem aquilo que no pós-25 de Abril ficou conhecido como "democracias musculadas".

A Europa – gigante económico, anão político - irá enfrentar um sério problema demográfico daqui a duas décadas, com a agravante de ter a fronteira mais fundamentalista do lado sul do Mediterrâneo. Quando o Velho Continente for alvo de um ataque como o que assolou Nova Iorque, então compreenderemos finalmente que o terrorismo é uma mancha invisível, um perfeito predador que ataca, tal como o vírus, atinge qualquer um, na hora mais inesperada. A israelo-palestiniana é também um problema nosso. O mundo não pode ser apenas “perigoso” (Vasco Pulido Valente) e “inquietante” (Mário Soares). Tem de ser “estimulante” (Durão Barroso).
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22.9.03

Notas sobre o I Encontro de “Weblogs” 

Não pude participar no I Encontro Nacional de Weblogs, em Braga. Pelo que pude ler, a iniciativa correu bem - aliás, outra coisa não seria de esperar de uma organização do Prof. Manuel Pinto.

Gostei particularmente da metáfora da cerveja do Prof. Jose Luís Orihuela. Tal como os monges, que “encerrado” o monopólio da “imprensa” com a invenção de Gutemberg tiveram que virar-se para artes mais “gustativas” – o fabrico da cerveja -, precisamos de encontrar novos caminhos para que os “blogs” continuem a ser uma ferramenta altamente democrática. A mim, é-me indiferente que haja mais “blogs” opinativos do que informativos. O que é relevante é que as pessoas participem, discutam, pensem, sejam cidadãos mais activos.

Esta notável participação é aquilo que vai restar desta moda. Sim, porque apesar das inovações que possam surgir, os “blogs” são apenas uma moda. Novas tecnologias e novos meios de nos (des)entendermos nascerão.
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364 Dias Com Carros 

Que significado tem o Dia Sem Carros? Será que a iniciativa leva as pessoas a reflectirem sobre o modo desgovernado em que se encontram as nossas cidades? Que comportamentos devemos assumir para melhorar o ambiente?

Sou firmemente contra todas as iniciativas de pura máscara e demagogia. Não sei se este dia se inclui nesta categoria. Creio apenas que não faz sentido os municípios e os cidadãos darem um "ar de graça" neste dia e esquecerem-se dos restantes 364. É através de uma mudança no comportamento diário (cidadãos) e nas políticas de organização urbanas (entidades públicas - autarquias e Estado) que se melhoram os resultados neste domínio.

É uma questão vital contribuirmos para um melhor ambiente. É o futuro das gerações vindouras que está em causa.

Há pessoas em Lisboa que não se incomodam com o facto de terem a 2.ª Circular como vista da varanda de casa. Sei também que há muitas que já nem se dão conta do ruído das ruas. O meu conceito de qualidade de vida inclui ordem e bom senso urbanístico, menos dióxido de carbono e menos ruído, mais espaços verdes e mais articulação paisagem humana/natureza. Qualidade de vida precisa-se!
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19.9.03

A mentira 

Sim, concordo com o que diz Miguel Sousa Tavares. A mentira existe em Política. Devemos condená-la em todas as situações. E sem contemplações. Porque a mentira pode entrar no ciclo de bola de neve.

Mas não são só os políticos que mentem. Também há jornalistas, historiadores, professores, advogados, cientistas, economistas, empresários, sindicalistas,... que mentem. É uma prática universal, pelo que seria injusto acusar os políticos como os únicos mentirosos das sociedades.

Cabe a cada um fazer o bom uso dos seus princípios. Cabe a cada atribuir à verdade e à honestidade a importância que bem entende.
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18.9.03

Uma ilha, um povo, uma causa 

A Democracia, que deveria ser um bem de todos, é ainda um privilégio de alguns. Se contarmos a China, alguns estados da Ásia e África, rapidamente concluiremos que pelo menos um terço dos habitantes do planeta não gozam de liberdades

Hoje, faço esta reflexão, a propósito do manifesto de Václav Havel, Lech Walesa e Árpád Göncz. Um artigo onde os subscritores - referências da Europa Central, de três estados que em Maio próximo farão parte da Europa dos 25 - relembram a questão de Cuba. No dia em que o Furacão Isabel vai fazer estragos na zona das Caraíbas, estes líderes apelam para que a Europa saiba estar ao lado da Oposição ao regime de Fidel Castro. A criação de um "fundo democrático cubano" parece-me uma boa ideia. Não restam dúvidas que de mais tarde ou mais cedo, a Liberdade chegará à ilha isolada. Uma evidência! Os ventos da Liberdade são mais fortes que qualquer furacão.
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16.9.03

Os pecados e a Esperança  

A Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) constitui um contributo de enorme relevância para a discussão dos problemas da sociedade portuguesa. O documento intitulado "Responsabilidade solidária pelo bem comum" revela a atenção que a Igreja Católica dirige ao mundo, ao Portugal moderno e democrático. Não descurando os princípios da doutrina social da Igreja, a missiva divulgada ontem apela nomeadamente para a responsabilização colectiva e solidária no projecto de construção de uma sociedade de exigência ética.

Os "pecados sociais" - expressão que para muitos equivaleria aos dramas humanos do século XXI - mostram que, de facto, há quem saiba fazer a leitura dos problemas dos cidadãos, cristãos, agnósticos e ateus, com que se deparam dia-a-dia.

Ao longo de 27 páginas, esta carta reflecte sobre os egoísmos pessoais e grupais, a era do consumismo, a corrupção, a desarmonia do regime fiscal, a irresponsabilidade na estrada, a mercantlização do fenómeno desportivo, a exclusão social, o desemprego, enfim, os temas problemáticos do momento actual.

Vale a pena ler esta carta. É que o documento não se limita a identificar os males do nosso tempo. A CEP aponta também os "sinais de participação solidária" - os "sinais de esperança", conforme designa o jornalista António Marujo do "Público".Trata-se, pois, de uma atitude a que estamos pouco habituados. É que, apesar de todos os males, a Igreja considera que há lugar para a Esperança. A tomada de sociedade como comunidade cultural, a promoção dos caminhos para a ética, educação, ambiente, cidadania, democracia, solidariedade, generosidade e responsabilidade, o fortalecimento dos movimentos de voluntariado, são alguns dos sinais que brotam da sociedade nacional.

Vale a pena ler e reflectir sobre este documento, um brilhante retrato sobre o Portugal de 2002.
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12.9.03

Será a Filosofia mais forte que (o) Ferro? 

Mais cedo ou mais tarde, Manuel Maria Carrilho voltaria à carga. É que o verdeiro filósodo não desiste, luta contra o estado das coisas.

Em entrevista ao semanário "O Independente", o antigo ministro da Cultura, critica a direcção do PS, em especial, o seu rosto principal: Ferro Rodrigues.

Mas recordemos os factos. Quando o Eng.º António Guterres deixou o PS - além do País -, ninguém entre as hostes socialistas quis avançar - à excepção do ministro Jaime Gama, que, invocando razões pessoais, não quis mergulhar em águas mais profundas, abdicando de uma candidatura. Manuel Maria Carrilho, Jorge Coelho, José Sócrates, João Soares e António Costa assumiram a mesma posição.

O jogo político é o jogo das oportunidade. E por isso as figuras mais emblemáticas do PS decidiram resguardar-se. Até melhores dias.

Era previsível que Durão Barroso ganhasse as Eleições Legislativas de 2002. Assim como era previsível que os dinossauros rosas despertassem algum dia.

Cada crítica nos jornais é um passo planeado, estudado, E aqueles que não souberam ter aquela que é também uma grande qualidade em política - a coragem - estão de volta.

Ferro Rodrigues teve uma coragem de aço. Mas a incansável necessidade de protagonismo de Carrilho, o "prime-time" de Sócrates, o tacticismo da família Soares e o mediatismo de António Costa iram aparecer.

A luta de titãs há-de chegar...
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11.9.03

11.09 - Um abalo nas nossas consciências  

"Quem não sabe prestar contas de três milénios, permanece nas trevas ignorante e vive apenas o dia que passa."
Göethe

Meu bom amigo(a),

Hoje quero falar-te sobre História, não a estória de fadas, mas a História dos factos, com episódios reais deste mundo, escrita por vencedores que triunfaram sobre vencidos.

Conflito entre os homens ao longo do Tempo, a História é uma viagem sem retorno, um percurso repleto dos mesmos mimetismos. Quem não aprende com ela, está condenado a repeti-la, dizia Churhcil. São desgraças idênticas, erros cíclicos, o mesmo texto de sempre, se bem que em contexto diferente.

Heraclito estava mais ou menos certo quando advertira que tudo é movimento, tudo flui, pelo que «não podemos tomar banho duas vezes nas águas do mesmo rio». Porventura, não achas estranho que homens continuem a matar outros homens? E a pretexto do quê? Bem sei que matar é uma palavra feia, mas faz parte do vocabulário humano dos nossos dias.

Pois, mas o mundo mudou no dia 11 de Setembro, não crês? Agora já sei porque me doeu tanto a barriga naquela tarde. Nessa altura, só soube do que se estava a passar, numa estação de combóios da linha do Minho.

Somos frágeis, tão vulneráveis a uma dor de barriga como ao contágio da ignorância dos homens. Recuso contudo que possamos culpar o Destino, porque o Fado é coisa não existe. Não podemos também acusar Deus ou Alá. O Deus não interfere com o livre arbítrio dos cidadãos . Pelo contrário. Deve sentir-se antes arrependido de ter juntado barro com costelas da mulher. E já somos tantos, mais de 6 mil milhões...

O homem, esse ser que para Agostinho da Silva, «nasceu para criar», é capaz da mais bela obra de arte: fazer a realidade superar a ficção. Crês que Mastroiani, Hitchcock ou Spielberg produziriam películas tão perfeitas como as cenas que vimos na televisão? Como reagiste à morte de duas torres, que outrora rasgavam os céus, e que agora são vazio. Apenas vazio. Por enquanto...

Sabes, a Nova Ordem não justifica encontrar hipócritas "máscaras civilizacionais". A raíz dos problemas é bem mais complexa. Muito complexa. Não é com o medo que se combate o terror. O que fica do 11 de Setembro é mais complexo do que a simples manifestação de poderes escondidos e que brotam inesperadamente para gritar «Nós damos cabo de vós, se quisermos». É ainda o espelho-imagem de uma letargia de consciências. Em memória das vítimas do 11 de Setembro, saibamos e não tenhamos medo de prestar contas de dois anos de História.
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9.9.03

Acto de contrição 

Todos aqueles que lutaram pela causa de Timor de Leste recordam-se de Ali Alatas como uma figura oponente à paz e à independência do território.

Numa entrevista concedida à Lusa e à RTP, Alatas manifestou o seu contentamento pela independência do antigo território português. Alatas lamentou também o sofrimento e a violência vividos pelo povo.

É sempre um passo de evolução pessoal quando um ser humano reconhece o erro. Mas neste caso concreto, Timor pagou demasiado caro três décadas a intransigência e o prepotismo de uma dos grandes regimes asiáticos.

Para que Timor possa seguir em frente, o povo tem de perdoar, ainda que as feridas demorem tempo a sarar. Tempo é pois o melhor dos remédios para matar a dor profunda.

Vou acreditar que as palavras de Alatas são um acto de contrição. Mas não basta! Ainda estão por condenar os principais responsáveis pelos crimes contra a humanidade cometidos em Timor. E sobretudo, para que o perdão possa ter sentido, faltam obras. Não basta palavras…

A Indonésia deve ajudar o seu vizinho, porque tem uma dívida para com o povo de Tirmor. Uma dívida que infelizmente nunca será paga.
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8.9.03

"Avante!"PCP para o abismo! 

"Se aquilo que tens para dizer não é mais belo que o silêncio, então cala-te."
Pitágoras

A 27.ª edição da Festa do "Avante!" terminou ontem. Coube ao secretário-geral do Partido Comunista Português, Carlos Carvalhas, encerrar oficialmente o grande momento por que os camaradas comunistas esperam todos os anos.

Não faltaram críticas aos membros do executivo (Paulo Portas, Luís Filipe Pereira, Bagão Félix, Figueiredo Lopes e Amí­lcar Theias). Durão Barroso, enquanto responsável por uma acção política que mutila a democracia e a Constituição da República foi também um dos destinatários preferenciais das críticas de Carvalhas. A cumplicidade do PS com a Direita e os apelos ao Presidente da República, Jorge Sampaio, nortearam também o discurso do dirigente máximo do PCP.

As intervenções dos dirigentes do PCP são as mais previsíeis que conheço do panorama político nacional. Em cada parágrafo, uma meia dúzia de frases jurássicas. Mudam-se e os nomes, mas slogans mantêm-se. Frases reveladoras de uma ideologia perdida no tempo. Os comunistas querem derrubar tudo e todos. Querem mudar tudo. Esquecem-se é que, por vezes, a mudançaa começa dentro das nossas próprias casas.

Enquanto não mudar, o PCP, encostado à dimensão do PS e à  (pseudo)força do Bloco de Esquerda, caminhará para a seu percurso imparável de partido residual.

Acusar o Governo de ser reaccionário é no mínimo hilariante, mesmo que discordemos de muitas das posições da maioria. Não será antes reaccionária aquela força que tenta abafar aqueles que têm voz diferente? O que o PCP fez aos renovadores - e estou a recordar-me de João Amaral, tristemente abandonado pelos seus - é revelador de uma ausência de rumo. O PCP é hoje um partido jurássico.

As instituições não podem propriamente viver ao sabor dos tempos; exige-se-lhes apenas que ouçam a voz do Presente, para poderem responder aos desafios do futuro.

Não sei se o lí­der parlamentar do PCP, Bernardino Soares, ou Rúben de Carvalho e outros polémicos militantes do partido, proferiram qualquer intervenção política na festa (à  excepção de Carlos Carvalhas e José Casanova). Se assim procederam, estiveram bem. É que para certas pessoas, a máxima de Pitágoras deve ser seguida à risca. Ou será que podemos ter dúvidas de que Cuba seja uma ditadura? Ou que a pena de morte seja uma aberrante manifestação humana?
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7.9.03

Divagações para esquecer uma noite de futebol  

As montanhas estão mais perto do céu, do sol e das nuvens. Tudo lá longe, mesmo por cima de nós. Como é incrível o rosto das criaturas! Passos de compasso, palavras de esperança, num imenso rol de vontades. - Que os teus olhos se encontrem com o sonho! Corre mundos, não esqueças o passado, orgulha a tua memória.

Dia após dia é como se tudo fosse uma sombra que gera luz. A sombra vem de fora, a luz imana de dentro. Um sussurro de milénios percorre a atmosfera. De noite, as estrelas são mais belas, não são? Uma reprise de eternidade, uma noite ao longo dos tempos. Se a viagem não tivesse um fim, eu limitar-me-ia a contemplar os agoras. Tudo flui progressivamente, num encontro de destruição.

As pedras constroem a liberdade do tempo. Dois mil anos não é nada ante a importância de um segundo. Um ano não se compara à perpetuação do minuto. O que é o Tempo? O que é o Espaço? Um por si, ou dois num só? Talvez um por dois num só.

Entre os palmos do destino e as milhas do acaso, opto pelo pranto do saber. Sei o que não sei. Não sei o que sei. É no grito de esperança que reside a errância do sonho. Silencio a mente para calar os ponteiros do imparável. A gotas que jorram desta nascente são sorrisos de ternura...

Os homens não se entendem e os pássaros ignoram que os ninhos se fazem de pedaços de nada. Há dias em que mais vale sentir a natureza. Nela encontramos o espelho da criação. Para quê procurar os outros, se não sou capaz de encontrar-me a mim próprio? Encontrar-se consigo mesmo é decifrar o rnigma dos problemas.

Teatralizar as questões é desvalorizar o valor das respostas.

Engolir as gotas do tempo é tão natural como caminhar pelos trilhos do espaço. Passo a passo, de palmo em palmo, a flecha não pára.

Na verdade, se o sol se levanta, por que é que ele não há-de descansar também? A ilusão não está em ver, mas em não sentir.
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4.9.03

O Rio Atlântico é mais forte que todas as sondagens  

A crise do Iraque pôs a nu divergências entre os povos europeus. Uma corrente manteve-se fiel ao continentalismo e à autonomia da Europa; a outra defendeu antes a visão do estreitamento de laços transatlânticos. De um lado, franceses, belgas e alemães; do outro, britânicos, italianos, espanhóis, polacos, portugueses, entre outros.

"A Europa é uma coisa boa, mas uma coisa difícil", afirmava o director-adjunto do Diário Económico, Raul Vaz, num colóquio sobre a coesão económica e social no espaço europeu.

Se queremos que a Europa continue a ser uma coisa boa, temos de saber manter um equilíbrio de posicionamento face ao que deve ser precisamente o projecto europeu. Por outras palavras, a Europa não pode nunca abdicar de ter uma voz e cabeça própria em todos os domínios - coesão político-económica, política externa, segurança e defesa.

A sondagem do German Marshall Fund vem demonstrar que há algumas diferenças de opinião entre Europeus e Americanos em determinados temas - sobretudo no que diz respeito ao papel a desempenhar pelos actores internacionais, a ONU e a NATO, concretamente, e à actuação da administração de George W. Bush.

Aquilo que une Europeus e Norte-Americanos é mais forte do que aquilo que os separa. Mesmo que todas as sondagens demonstrassem o contrário, é crucial que os dois lados do Atlântico saibam criar pontes. A Europa e a América devem apresentar-se como dois fora da Paz, da Democracia e da Tolerância. E a Europa é um actor privilegiado: um grande motor económico e social, um especial proponente na difusão das liberdades.

A nossa postura contra um certo unilateralismo da administração americana deve com efeito assentar numa lógica moderada. Porque, afinal, os Estados Unidos são um país com um povo que nos merece respeito.

O 11 de Setembro foi apenas há dois anos. O terrorismo, as armas de destruição maciça e o fundamentalismo islâmico são mais do que meras preocupações do nosso tempo. São ameaças às conquistas das gerações dos nossos antepassados. E são também perigos para o futuro daqueles que hão-de dar continuidade à nossa capacidade de sonhar.

A Portugal, e invocando as palavras do director do "Diário de Notícias", Mário Bettencourt Resendes, cabe, pois, o papel de aprofundar o "relacionamento transatlântico" e de "preservar a nossa vocação e margem oriental do Rio Atlântico". Só assim seremos de facto mais influentes política e estrategicamente do que somos do ponto de vista geográfico. A periferia territorial é um fatalismo; a nossa capacidade político-diplomática não. Esta depende muito da nossa determinação e vontade.
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3.9.03

Os professores à rasca... 

Os resultados das listas de colocação de professores foram hoje divulgados pelo Ministério da Educação. Cerca de 30 mil candidatos não conseguiram uma escola onde pudessem ensinar. Durante os próximos meses - para não dizer anos - estes docentes vão ficar sem emprego.

Não posso ficar indiferente a esta dramática realidade. Sabemos que há uma oferta de profissionais de ensino. Mas o que fazer a estes homens e mulheres talhados para formarem futuros cidadãos? Não haverá formas de atenuar este problema? É verdade que há escolas com um rácio entre professores/alunos satisfatório, mas também há estabelecimentos com um número excessivo de alunos por sala de aula. Os professores poderiam envolver-se noutras actividades, para além de ensinarem dentro de quatro paredes.

Temos um índice de escolaridade dos mais baixos da Europa. As taxas de insucesso escolar são, por seu turno, extremamente altas. Estamos ainda confrontados com a redução da população estudantil. O quadro agrava-se com a formação, todos os anos, de milhares de licenciados em cursos de ensino.

Se de facto o primeiro-ministro pretende reformar a Administração Pública, então por que não apostar neste capital humano? Um bom professor pode converter-se num excelente quadro de uma qualquer instituição do Estado, por exemplo, do sector do Turismo, a grande aposta do Governo. Era uma forma de ocupar homens e mulheres válidos.

Sinto um carinho extremoso pelos professores. Todos nós tivemos uma professora primária que, nos dias maus, nos dava reguadas; nos dias bons – a maioria -, ensinou-nos o "bê-á-bá" da vida. Outros foram mais longe: ensinaram-nos a compreender o mundo, despertaram-nos para a descoberta da leitura, deram-nos a cana de pesca para a vida.

Todos os professores merecem a nossa máxima atenção. O Ministério da Educação, e em particular o ministro David Justino, tem o dever de procurar alterar esta trágica tendência.
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2.9.03

A Europa do défice: como?  

A União Europeia foi uma invenção extraordinária. Um passo fantástico rumo ao desenvolvimento e, sobretudo, à manutenção duradoira da Paz, da estabilidade e da segurança.

Nunca outra geração europeia viveu mais tempo em concórdia como a dos nossos pais. A minha ainda está a desfrutar os frutos dos alicerces dos grandes fundadores da antiga Comunidade do Carvão e do Aço.

Nos primórdios da instituição, o Aço e o Carvão eram as matérias-primas fulcrais. Delas dependiam a economia dos estados. Por causa delas se travaram guerras e se alimentaram ódios.

Há hoje dois tipos de sentimentos relativamente ao projecto europeu: a Europa é a melhor forma de relacionamento de comunicação entre os povos europeus; faltam, porém, ideias e homens com capacidade de sonhar e de concretizar impossíveis.

As polémicas quase diárias em torno do cumprimento do défice público revelam a ausência de uma linha condutora no projecto europeu. O alargamento concretizar-se-á em Maio de 2004, mas ainda nem sequer sabemos que tipo de Europa queremos no futuro: uma Europa do controlo rígido – não confundir com rigoroso – dos défices públicos, ou uma Europa ajustada às naturais idiossincrasias dos estados?; uma Europa dos Pactos de Estabilidade e Crescimento ou uma Europa com uma matriz social, solidária?

A União Europeia foi criada para fazer do Velho Continente um espaço mais justo, mais próspero e mais solidário. A cegueira dos números não pode de forma alguma anular a redução das desigualdades.

É possível claramente conciliar a exigência financeira com a componente humana e social. É isso que nos distingue dos Estados Unidos da América. O nosso lado social radica na nossa profunda convicção de um certo sentido de Humanismo. A nossa história, cultura, língua e forma de pensar conferem-nos uma responsabilidade acrescida.

Entretanto, ao que tudo indica, a Comissão Europeia revela alguma disponibilidade, caso Portugal exceda o limite imposto pelo PEC. Não serão aplicadas sanções ao nosso país, se a recessão económica e as consequências dos incêndios tiverem um forte impacto na economia nacional, revela o "Diário Económico". Estas razões parecem-me todavia forçadas. Porque esta posição não reflecte qualquer tipo de preocupação da Comissão face aos problemas do País, mas decorre claramente do facto de a Alemanha e da França já terem anunciado que não vão cumprir o critério dos 3 por cento. Uma vez mais se prova que os grandes têm mais força que todos os estados pequenos.

Por muitos que nos custe, na questão do défice, devemos agora ir até ao fim. E que sejam aplicadas sanções aos estados incumpridores, sejam eles quais forem. Assim, não vale!
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1.9.03

Ca(l)minha  

O maior partido do sistema democrático português, o PSD, escolheu Caminha para realizar a tradicional festa-comício de Verão. Durão Barroso foi à vila histórica do Alto Minho pedir estabilidade política e confiança política até 2010. Anunciou uma redução dos impostos sobre as empresas (IRC) – que vai passar de 30 por cento para 25 cento já em 2004 -, e o compromisso de uma descida do IRS até ao final da legislatura. O presidente do PSD garantiu ainda que o Orçamento de Estado de 2004 vai privilegiar a Educação, Ciência e Cultura, sendo que todas as 32 mil salas de aula do primeiro ciclo serão equipadas com um computador com ligação à Internet. O défice público não vai ultrapassar os 3 por cento definidos pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC). E em Setembro, a chamada “reforma das reformas”, a Administração Pública, vai avançar. Estas foram as ideias dominantes do discurso do presidente do PSD.

Creio que a mensagem que o primeiro-ministro levou a Caminha inverte a tendência do discurso que durante os primeiros meses de governação assolou o País. Durão Barroso quer mobilizar os portugueses com ideias, objectivos. Noto apenas alguma precipitação no discurso do líder social-democrata. Durão Barroso afirmava há meses que era prematuro falar em Eleições Presidenciais, por se tratar de um escrutínio a ocorrer m 2006. Não será também prematuro falarmos no julgamento do XV Governo Constitucional quando ainda nem sequer se cumpriu metade do actual mandato?

Um passo de cada vez, julgo que é este o melhor caminho. É ainda demasiado prematuro falarmos em confiança para além de 2006. É tão prematuro falar em Eleições Legislativas em 2006, como em Presidenciais. 2004 é ano de Eleições Europeias e de Eleições Autónomas. Duas etapas que antecedem o verdadeiro teste: as Eleições Autárquicas em finais de 2005.

Coragem e teimosia são duas qualidades que não faltam ao líder do PSD. O primeiro-ministro demonstra ter uma estratégia para o País. Resta que concretize a objectivo-cimeiro da sua acção e do seu propósito político e pessoal: “Construir um País mais próspero e mais e justo”. Os Portugueses proferirão a sentença final.
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