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29.8.03

O inevitável da (blog)democracia 

"Creio que o limite de cada "blog" é, pois, a consciência do seu autor.” Esta foi uma das declarações que expressei no início da minha entrada na era dos “blogs”. Decidi invocar novamente esta frase, porque está na ordem do dia – na blogoesfera e mesmo entre os jornais convencionais – o debate de uma mensagem sobre o escândalo Casa Pia (penso que o leitor deve ler com os próprios olhos o que consta no "blog" Muitomentiroso).

Dizem os entendidos das Relações Públicas que há três formas genéricas para encarar um determinado acontecimento: refutá-lo de imediato com base numa argumentação sólida e no contra-ataque, ignorá-lo cavernalmente, ou deixá-lo que ele seja esquecido pelo público. Não se tratando de um boato – fenómeno a que vulgarmente se aplica este modelo -, a mensagem divulgada pelo “blog” em causa é de facto grave. Muito grave. Já sabíamos que a Net era um espaço de total liberdade. Cada qual podia e pode expressar o seu pensamento. Creio no entanto que em tudo há uma dose de equilíbrio. Os “blogs” também se confrontam com vantagens e riscos.

O escândalo Casa Pia abalou a consciência das pessoas. Descobrimos que a sociedade portuguesa não é uma entidade imaculada. Nunca o foi. Os cidadãos portugueses foram atingidos no coração. Crianças que julgávamos protegidas pelo Estado foram durante anos abusadas. A Justiça decidiu actuou. E muitos suspeitos (constituídos arguidos) vão agora ser julgados.

Conheço tanto do processo "Casa Pia” como de física quântica. Leio apenas o que vem nos jornais.

O que o "Muitomentiroso" declara revela contornos de maquialevismo, e talvez seja uma operação com o objectivo de inquinar as mentes das pessoas. De qualquer forma, não lhe quero chamar para já de operação criminosa, pelo menos para já (tal como sustenta JPP, no Abrupto).

No plano ético, qualquer cidadão consciente das suas liberdades sabe que a liberdade de expressão tem os seus limites. Fazer insinuações como se lançássemos pedras para o ar é tão só um acto irresponsável, por vezes grave. A pedra pode cair-nos em cima! É o efeito “boomerang”.

O Grupo Operacional de Vigilância Democrática não pode por isso fazer acusações com esta gravidade, refugiando-se no anonimato. O GOVD não pode servir-se da mentira e da calúnia como forma de expressar pontos de vista, diria antes, insinuações. E estas são demasiado graves para que passemos ao lado delas.

A (blog)democracia é isto mesmo: um espaço de (des)encontro de ideias, supostamente saudável. E o lado pouco saudável começa a criar raízes...
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28.8.03

Há vida para além do futebol... 

Portugal é um país de poetas. É comum ouvir-se esta afirmação entre as pessoas.

Em Paris decorrem entre 23 e 31 de Agosto os Mundiais de Atletismo. Uma prova que se tem pautado pela desilusão para o Desporto nacional. Os nossos melhores atletas - Rui Silva, Francis Obikwelu - não conseguiram alcançar qualquer medalha. Coube a Carlos Lopes contrariar a tendência. O atleta nacional, acompanhado pelo seu treinador e guia, Nuno Alpiarça, cumpriu os 400 metros em 52,41 segundos, conquistando até ao momento a único título - a medalha de ouro - na prova.

Os atletas deficientes queixam-se frequentemente da falta de apoios. E com razão. Todos os atletas, em particular os paralímpicos, merecem o nosso carinho. E o Estado deve traduzir esse carinho em recursos e apoios. É fundamental que o a Secretaria de Estado do Desporto conceda os mais variados benefícios a estes atletas. O Estado não pode esquecer-se que estes atletas são a glória do desporto nacional. Um orgulho para todos nós.

O futebol não pode continuar a ser o receptáculo do investimento e da atenção do poder.

É já em 2004 que se vão realizar os Jogos Olímpicos. Atenas, berço da civilização, será uma vez mais momento de desilusão. Tal como foi Sydney em 2000.

Enquanto não houver uma política determinada que promova o Desporto – na escola, no bairro, na cidade, na região – numa visão de longo prazo, continuaremos a queixar-nos do mal da falta de medalhas. Não basta a criação do Instituto do Desporto de Portugal para resolver os problemas desportivos. Um País precisa de medalhas e de heróis. Talvez assim evitemos que a nossa autoestima se afunde cada vez mais. Talvez nos tornemos em algo mais do que um país de poetas...
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27.8.03

Encontro galáctico  

Não tenho telescópio. Sou um astrónomo apenas de olhos nus. Consigo identificar a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Cassiopeia (aquele conjunto de estrelas em forma de W), pouco mais...

Quando era adolescente, passava horas a fio nas noites de Verão a contemplar os pontos brilhantes do céu. Sempre com um alcance mais filosófico do que propriamente com uma visão física e matemática (ciências que sempre admirei, mas com quais sempre tive um relacionamento complicado). Intrigava-me saber que aqueles objectos luminosos distantes que imanam luz própria podiam já não existir. Isso fazia sentir-me especial. O mistério, a evidência. A luz que eu via era a luz do tempo dos dinossauros, de há milhares, milhões de anos luz...

Hoje, Marte e a Terra vão estar separados por uns meros 55,7 milhares de quilómetros. Há 58 mil anos que os dois planeta não se encontravam tão pertos. Será como que um piscar de olhos, um beijo galáctico entre dois mundos.

Para a ciência aeroespacial, Marte será o próximo patamar de uma nova era, um desafio. De facto, não tenho dúvdas: nas próximas três décadas o Homem irá pisar o solo do Planeta Vermelho, ou pelo menos roçará a órbita do "planeta vermelho". Intenções não faltam. Mas se norte-americanos, europeus, chineses, japoneses e todos os outros povos juntarem, o feito será alcançado mais cedo.

Do ponto de vista mitológico, há algo de fascinante em Marte, deus da guerra, o eterno apaixonado de Vénus. E hoje, Vénus vai ter ciúmes de Marte. Vénus e Marte vão estar separados pela Física... mas sempre presos pelo Amor.

Qualquer fenómeno astronómico atrai a curiosidade das pessoas. Sentimo-nos pequenos perante a grandeza destes encontros cósmicos. A aproximação de Marte à  Terra - espectáculo a repetir-se lá para o ano de 2287 - deveria trazer-nos a seguinte lição: somos pequenos perante a Natureza. Somos simplesmente pequenos. Carpe diem.
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26.8.03

419.375 

Há dois assuntos-problema que me preocupam mais do que qualquer outro na actualidade. Um é a sinistralidade rodoviária, tema que desenvolverei um destes dias. O outro é o desemprego.

Em Julho, aumentou o número de pessoas sem emprego. 5.230 pessoas passaram a constar dos registos do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE), 419.375 pessoas (ou seja, 7,8 por cento da população activa) estão sem trabalho.

Quando pensamos em desemprego, normalmente associamos a realidade a números. No pior dos casos, julgamos que o desemprego diz respeito aos outros.

Em primeiro lugar, não nos podemos esquecer que por detrás de um número - no caso 419.375 - estão 419.375 vidas. Cada desempregado é desempregado a tempo inteiro, dizia um antigo ministro deste país. É verdade que os Governos também se preocupam com a problemática de desemprego. Qualquer Governo quer atingir uma taxa residual de desemprego. Menos emprego significa mais riqueza. Igual preocupação é revelada pelos sindicatos e por outras entidades. Acontece que as opções para combater este flagelo económico e social são distintas.

Não tenho infelizmente soluções para o desemprego. Sei apenas que este País não pode queixar-se dos baixos índices de produtividade e simultaneamente rejeitar licenciados.

Preocupo-me com os desempregados, com todos, embora me aflija a situação dos que têm qualificações. Porque também integrei em tempos o grupo dos recém-licenciados desempregados silenciosos - aqueles que não estão inscritos nos centros de emprego, mas que sobrevivem, na sua maioria como o amparo dos pais.

Na altura, sentia o peso da frustração: um investimento de anos parecia cair em saco roto. Felizmente as coisas acabaram por compor-se, graças à ajuda de uns amigos. A eles devo as oportunidades que me deram.

No fundo, é isso mesmo que se trata: oportunidades. O Estado tem o dever de criar oportunidades. E as universidades não podem simplesmente querer sugar as propinas aos alunos e largá-los na arena da competitividade sem lhes proporcionar um rumo. Bem sei que não é missão das instituições de ensino criar empregos. Mas é função das instituições incrementarem a articulação com o mundo do trabalho, as empresas.

Quando nos voltarem a falarem desemprego vamos pensar que ao lado de nós há um desempregado. Aliás, nós próprios podemos juntar-nos à lista. Não há empregos estáveis. O emprego é hoje um bem frágil. A crise também nos pode bater à porta. O mercado do trabalho alimenta-se da precariedade. Os patrões - e insisto na palavra, fazendo a natural distinção dos empresários responsáveis - são muitas vezes os culpados para o ponto a que chegou o desemprego. No Vale do Ave é comum os ditos patrões delegarem aos directores de recursos humanos o despedimento de homens e mulheres de meia idade (entre os 40 e os 50 anos). Infelizmente, foi o que aconteceu com o meu pai. Mas eu sei que isto se passa com muitos pais, filhos e mães deste pequeno País. Sim, pequeno, porque o que posso dizer de um País que quer destruir pessoas válidas? É uma revolta tremenda. Só quem sente sabe o significado da palavra desemprego (desemprego - substantivo anacrónico de dor, nalguns casos, desespero).
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25.8.03

Portimão, porto sem mensagem  

O secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, acusou o actual Governo de ceder ao peso excessivo da direita radical. Ferro Rodrigues apelou ao primeiro-ministro, Durão Barroso, para remodelar o executivo, de forma a contrariar o radicalismo e o populismo do CDS-PP. Estas foram em traços gerais as ideias-síntese da "rentrée" política do PS, em Portimão, que marcou a entrada em cena do PS.

Os 45 minutos de discurso de Ferro Rodrigues não trouxeram nada de novo. Creio que nem os eleitores nem provavelmente os militantes socialistas se deixaram convencer pelas palavras do antigo ministro da Solidariedade e do Trabalho.

Afirmar que o PP é um partido da direita radical já não serve como argumento para fazer oposição. O PS quer continuar a fazer política na base de sustentações ideológicas ridículas, esquecendo-se que as pessoas querem ideias. Não há mensagem, não há alternativa.

Durão Barroso não vai aproveitar a “rentrée” do partido que lidera para explorar esta falha da direcção do PS. As críticas de Ferro vão ser ignoradas, pelo que se prevê que o presidente do PSD acentue o seu discurso em mais alguma jogada emblemática – reforma, medida, proposta, objectivo – a concretizar pelo XV Governo Constitucional.

O PS manter-se-á apagado enquanto não apresentar uma proposta válida. Atingir o partido menor da coligação não será com certeza o caminho para o PS. A actual direcção está desacreditada. Carlos Candal, na última edição de "O Independente" caracterizava Ferro Rodrigues de ser um líder de "transição", "sem carisma". Quem criticará a seguir?
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22.8.03

Que é feito da dignidade humana? 

Ontem recebi um "e-mail". Seria uma mensagem como todas as outras, não fosse o seu remetente e conteúdo. Remetente: uma pessoa que me acompanha graciosamente em todos os momentos. Conteúdo: como poderei resumir uma fotografia onde se vê uma criança africana, não sei se menina ou menino, perante a agonia da fome? (Por perto, encontrava-se um abutre à espera do suspiro final daquela criança - desculpem, mas ainda não sei inserir imagens no "blog" - alguém me ensina a pôr imagens?).

Ainda se morre à fome. Morrer à fome não é notícia nos telejornais, ou é só quando dá jeito, quando se quer arrancar audiências à força. Morrer à fome tornou-se uma banalidade esquecida pelo universo mediático. Pelo jornalistas, que tanto prezo. Pelas opiniões públicas, sem tempo para pensar.

Comemos, esbanjamos, desperdiçamos. Vivemos na cultura da autosatisfação. E milhões de seres humanos não têm o que meter à boca.

Um estranho em Lisboa como eu, não percebe de imediato que para os lados da estação de combóios de Santa Apolónia (como na zona dos Anjos, na Sopa dos Pobres), ao final da tarde, há uma carrinha de uma qualquer instituição de caridade que vai enganar a fome áquela gente. Gente de corpos e mentes frágeis. Um bocado de pão e meia dúzia de colheres de sopa é tão só o que recebem para iludirem a saciedade.

Bastava o que se gasta em gelados na América do Norte para matar a fome no continente africano. Não vou sequer falar dos gastos supérfluos em armamento de guerra (não confundir com armamento de defesa dos estados modernos).

Não quero ser um demagógico de estômago cheio. Reconheço que as causas da fome e todos os males civilizacionais são demasiado complexos para tirar ilações fáceis. Os governos e os Estados são os primeiros culpados. Corruptos, esquecem-se das pessoas, alimentam apenas os apetites das elites.

Não deveria o Estado ter coração? Ou deverá manter-se uma entidade asentimental? Nós somos o Estado. Nós elegemos os governos. Nós temos o direito de escolha. Nós queremos que o Estado faça mais pelos mais pobres. Porque ser pobre é um estado que não retira a dignidade que nasce da vida. Um pobre tem direito à dignidade. E eu exijo que o meu Estado faça bom uso dos meus impostos. Que ajude os mais necessitados, à mesma velocidade com que me debita as minhas contribuições fiscais.

Admiro quem ainda agradece a Deus durante alguns minutos o pão que tem pela frente. Não se trata de um hábito em desuso. Trata-se de um gesto de gratidão a um Deus invisível, mas imanente. Obrigado, Meu Deus, pelo pão que me dás todos os dias!
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20.8.03

Um amigo da humanidade  

Vivemos um tempo de mudança. Há quem diga que o mundo já não fabrica heróis, génios, homens de grandeza. Creio que não. Sérgio Vieira de Mello era uma espécie de homem modelo. Um diplomata de terreno, um corajoso dos cenários quase impossíveis, um humano próximo dos humanos, dos mais fracos, dos mais necessitados.

O terrorismo não escolhe dias, selecciona apenas alvos. O terrorismo, estado-problema do nosso tempo, pode atingir qualquer um. E atingiu Sérgio Vieira de Mello.

É sintomático o que se está a passar na esfera internacional. A Organização das Nações Unidas, espaço de encontro da comunidade livre, é agora também uma entidade tocável. Julgávamos nós que a ONU estaria imune a todas as violações terroristas e ataques gratuitos.

Ora um terrorista não tem fundamentos, pelo menos, os fundamentos que nós consideramos nobres: a paz, a Justiça, a liberdade.

A vingança é o último grito de desespero de um terrorista. Um instinto que se traduz na própria destruição da vida de quem se serve do último dos recursos.

Sérgio Vieira de Mello era um amigo da humanidade. Nenhum timorense, nenhum português, nenhum homem digno dessa condição, pode ficar indiferente ao exemplo do embaixador brasileiro. Um símbolo da Paz, um lutador pela concórdia onde ela não existia. Por isso, nunca recusou estar nos cantos mais suspeitos, nas zonas mais instáveis. Porque, afinal, o mundo é ainda um palco de instabilidade, de guerra, de conflitos.

Infelizmente, o destino interrompeu a vida deste homem bom e solidário. Alguém que subira a passo a carreira de diplomata no mais prestigiado dos fora internacionais, haveria de ir mais longe. Muito mais... Tenho quase a certeza que mais cedo ou mais tarde ele ocuparia o cargo de Secretário-Geral da ONU. Teria sido um caso pioneiro: um homem de um país grande, falante da língua portuguesa, atingir o estatuto de supremo diplomata inter-nações.

É a hora de darmos uma resposta clara ao terrorismo. Lição que já havíamos recebido do 11 de Setembro. É a hora de a ONU aproveitar este momento para fazer a sempre adiada reforma institucional e financeira da organização. É este o melhor tributo a Vieira de Mello e a todos os fazem da busca da Paz o seu percurso de vida.

O mundo não precisa de uma aspirina. O mundo precisa de homens simples e com vontade. E a vontade traduz-se tão somente pelo querer, diria Kant. E nós queremos líderes que façam deste mundo em que habitamos uma terra de sonhos. Sonhos para todos. Querer é poder.
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19.8.03

Um alvo fácil  

"Felix qui potuit rerum cognoscere causas"
("Feliz aquele que pôde conhecer as causas dos fenómenos")

O jornalismo é uma actividade de risco. Os jornalistas são alvos demasiado fáceis. Merece-me respeito esta disciplina, actividade que exerci algum tempo. Que estudei também, e que perante a qual, dirigirei, sempre, a minha atenção.

Desde Março e até ao momento, 17 profissonais da informação perderam a vida ou estão dados como desaparecidos, em consequência de acções perpetradas nas mais diversas zonas de risco e de conflito. Todos os anos, várias dezenas perdem a vida.

Mazen Dana foi a mais recente vítima desta onda de violência que todos os anos atinge o universo dos que contactam, filtram e divulgam os factos do dia-a-dia. O operador de câmara palestiniano da Reuters foi morto no passado Domingo, em Bagdad, por soldados americanos. Dado curioso: os Estados Unidos da América, um dos principais símbolos da liberdade de informação, é hoje um dos grandes agentes que mais atentados infligem contra os profissionais de Comunicação Social, particularmente nas zonas onde estão instaladas forças de segurança e militares norte-americanos.

Nem sempre sabemos reconhecer a missão exercida pelos homens e mulheres que estão por detrás das imagens que vemos, das reportagens que lemos, ou das histórias que nos chegam aos ouvidos (nos cafés, nas conversas com os amigos ou a família). São homens e mulheres com rosto, saber e coração. Pagam caro por vezes a ousadia de satisfazerem a nossa necessidade quase primária de estarmos informados.

A todos aqueles que se servem da caneta, PC, objectiva ou câmara de filmar, para partilharem connosco o que se pasa no mundo, os meus sinceros agradecimentos. A História seria mais pobre sem o vosso trabalho. A Democracia não existiria sem a vossa coragem. O mundo seria unívoco, estaríamos confinados ao preto e branco dos acontecimentos, não teríamos acesso à versão dos factos sujeitos ao princípio do contraditório, que o bom profissional nunca esquece.
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18.8.03

Luz ao fundo do túnel  

Lisboa é uma cidade bela. Em cada canto da capital portuguesa espreita um pedaço de história. Como qualquer cidade moderna, Lisboa procura adaptar-se aos avanços do tempo e ao desenvolvimento. Os problemas da cidade portuguesa são, pois, os problemas de qualquer cidade europeia.

O tráfego rodoviário constitui, a par da fuga dos jovens para a periferia, uma das situações mais preocupantes, a merecerem uma imediata intervenção das entidades competentes, desde logo o executivo camarário.

Para minimizar a circulação automóvel no centro da cidade, o executivo liderado por Pedro Santana Lopes propôs a construção de uma passagem inferior, naquilo que se está a tornar mediaticamente conhecido por Túnel das Amoreiras. Obra, aliás, cujos primeiros passos já se concretizaram.

Os meus conhecimentos dessa disciplina social, que emergiu no século XIX, o urbanismo, são escassos. Creio, porém, que posso afirmar que o projecto do Túnel das Amoreiras, deve procurar preservar o espaço natural da zona da obra. As árvores localizadas no Parque Eduardo VII devem estar acima de qualquer interesse, pelo que devem ser salvaguardadas. Já não basta termos sido negligentes com a Floresta durante décadas - os resultados estão à vista - e estarmos agora a pactuar em silêncio com o abate de árvores numa cidade onde os espaços verdes são um bem raro. Lisboa precisa de vida, ar puro.

À Técnica compete minimizar os danos ambientais que se possam desencadear com a construção do túnel. Um facto que a Câmara Municipal de Lisboa não pode descurar. Acredito sinceramente que vai prevalecer o bom senso depois desta polémica.

Faz bem a Quercus em se manifestar contra todos os projectos que, de acordo com a organização ecologista, possam atentar contra o ambiente. Mas que estas e outras iniciativas de manifestação estejam alheadas da politização fácil. A Quercus não deve como, em certos casos sou levado a pensar, escolher certos alvos, sejam governos, ministros, ou agora (determinados) executivos camarários, pela simples razão de que "aqueles são simplesmente para abater". Tal como as árvores do Parque Eduardo VII que a Quercus declara estarem em risco.
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16.8.03

A memória e o perdão  

A memória é o conjunto dos fragmentos que o nosso cérebro vai registando à medida que os acontecimentos da nossa vida se vão desenrolando. E há acontecimentos que, por mais prolongados que se tornem no tempo, não se apagam da nossa cabeça. Aliás, na memória nada se apaga. Tudo fica gravado. A memória é um livro aberto e simultaneamente escondido.

Lembro-me, com algum rigor, da tragédia que encandeceu os céus da pacata localidade escocesa de Lockerbie. Foi com o espanto de criança que vi pela televisão as imagens daquele destroço de focinho do Boeing 747 da Pan Am, caído no chão.

Na altura, a confirmação do envolvimento de agentes secretos líbios na execução do atentado provocou reacções por todo o mundo. As sanções ao regime de Mohamar Kadhafi foram a resposta mais forte da comunidade internacional para punir os culpados.

Quinze anos depois da tragédia, a Líbia reconhece finalmente a sua ligação ao atentado. A diplomacia de Londres, com o agreement de Washington, vai por isso apresentar um projecto no Conselho de Segurança da ONU requerendo o levantamento das sanções ao país.

Fica claro que a diplomacia é capaz de evoluir no tempo. Já a memória, não sei...

A memória é uma faculdade que está directamente relacionada com o perdão. Um cristão, tal como me assumo, não pode dizer que perdoa sem esquecer. O perdão, único e sincero, implica o esquecimento total. O que nem sempre é fácil. É complicado pedir às famílias das 170 vítimas da tragédia que perdoem, ou sequer que esqueçam o choque que interrompeu a história das vidas dos seus familiares (e delas próprias, porque quando morre o outro que amamos, morre também um bocado de nós).

Como ser racional e distante deste acontecimento (vivi-o na qualidade ser que acompanha os factos do mundo), tenho sérias dúvidas de que algum dia possa perdoar o atentado de Lockerbie. E por isso talvez possa compreender que as famílias das vítimas não queiram perdoar. Talvez o perdão seja um gestos mais nobre do homem. Mas não há indemnização que (a)pague o sofrimento daquela noite de 21 de Dezembro de 1988.
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15.8.03

Sinais preocupantes  

Em Portugal, placa migratória e de repouso de cegonhas, os apagões são mais habituais. Não conheço aldeia, vila, cidade ou região do país que não tenha ficado às escuras durante um par de horas.

Ora, julgava eu que, depois do 11 de Setembro, os milhões de dólares da investidos pela administração Bush no reforço dos mecanismos de segurança estivessem a dar frutos. Apesar de os manuais se mostrarem incapazes de prever 100 por cento das situações, creio que há certos acontecimentos que já deviam estar mais do que catalogados.

Desconhecendo até ao momento as razões do enorme apagão que afectou 50 milhões de cidadãos da América do Norte, sei contudo, tal como este simples caso nos revela, que há falhas, muitas, algumas impensáveis, no sistema de segurança da única potência da actualidade. Ou não fosse a electricidade a principal fonte de energia do homem.

Para quem anda à espreita de uma oportunidade para gerar de novo o caos, o que se passou quinta-feira nas cidades de Nova Iorque, Boston, Detroit e Cleveland (EUA) e Toronto e Otava (Canadá), vem demonstrar que o mundo pode um dia acordar, com um espectáculo tão bárbaro como aquele que assistimos há dois anos. Há que tirar lições deste caso. Ou vamos fingir que nada vimos...

Numa noite sem luz e néons, os norte-americanos aproveitaram para ver as estrelas... Espero que nenhum alto responsável e autoridade dos Estados Unidos ande a fazer o mesmo desde o dia 11 de Setembro, o dia em que as consciências do mundo tiveram o maior apagão da história mais recente.
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14.8.03

El Comandante 

Fidel Castro celebrou ontem 77 anos. É o líder com maior longevidade política no nosso tempo. Desde 1959 que El Comandante ocupa o lugar de primeiro-secretário do comité central do Partido Comunista Cubano e presidente do Conselho de Estado e de Ministros.

Cuba continua a ser um bastião de repressão e de ausência de liberdades. Os mais recentes episódios (a condenação à morte de opositores ao regime) mostram que Fidel se mantém igual a si próprio. É certo que já não discursa várias horas às massas; procura, contudo, transmitir a mesma coragem e teimosia, mesmo que orgulhosamente só, parafraseando alguém. Por detrás das barbas e da farda de militar, que sempre fez questão de exibir, há um homem fiel aos ideais da revolução.

Há uma certa dose de culpa que tem de ser atribuída às sucessivas administrações americanas, pelo embargo cego e contraproducente que alimentam. É no embargo que as gerações de cubanos se têm refugiado para reforçarem o espírito da revolução cubana. O embargo tem sido a correia de transmissão do regime. Julgo que os 11,2 milhões de habitantes já se teriam aberto ao mundo se os homens da Casa Branca tivessem dado ouvidos às palavras do papa João Paulo II, por ocasião da sua visita à ilha: "Que Cuba se abra ao mundo e que o mundo se abra a Cuba". E não mais assistiríamos ao desespero de magotes de cubanos que ousam atravessar o braço de mar que os separa da liberdade e do sonho. Muitos deles acabam infelizmente engolidos pelo mar.
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13.8.03

Quem atira a primeira pedra? 

Julgava eu que histórias como esta não existiam. Nem sequer no imaginário. Na Índia, numa terra chamada Chanpawat (não sei se estou a ser preciso), há um estranho costume local. Os habitantes atiram pedras uns aos outros com uma convicção mais forte do que a de nuestros hermanos com tomates.

Estranho mundo aquele em que vivemos. Num país com uma população duas vezes superior à União Europeia, certos rituais deixam-me intrigado. A Índia de castas tem destas coisas: casamentos de menores com animais (um cão, se bem me recordo), e agora esta intifada hindu. Como ocidental, encaro estes ritos com estranheza, é óbvio. Mas será que os devo respeitar? Até onde vai a minha condição de ser tolerante? Será que o acto de fé está acima da dignidade da vida? Ou será que factos como os que os media nos trazem nos devem merecer mais do que reflexão? Repulsa, indiferença, respeito? Tal como a mutilação genital feminina na Nigéria, o acto de atirar uma pedra a um amigo ou familiar é no mínimo bizarro. Para uns, a fé move montanhas. Para outros, ela pode mover simplesmente o antebraço. Acredito em Deus, mas não nestas pequenas loucuras ou doses de fé.
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9.8.03

Um novo rosto da arte  

Não sei o que é arte. Estudei-a, classifiquei-a. Porém, nunca fiz arte (não sei se se pode utilizar o verbo "fazer" para o acto ou efeito de criar arte).

A arte pode ser mais do que uma mera manifestação humana. A arte transcende-nos. Ela é vida, ela é sonho, ela é tudo aquilo que somos ou desejamos ser. Às vezes, não nos damos conta de que a arte pode também ser uma descoberta do signficado da vida, ou de nós próprios. Com a arte, renasce-se, recomeça-se, inicia-se um novo percurso. Para qualquer lado...

Admiro Pedro Cabrita Reis. Ele foi o representante de Portugal na 50ª Bienal de Veneza - 2003. Ele é o agente humano que se serve de materiais quotidianos para construir a sua obra. O trecho que aqui trago - extraído do site do Ministério da Cultura - despertou-me a atenção.

"Como artista e como questão filosófica, interesso-me pelo que podemos considerar uma acção humana primordial - o acto de construção. Neste sentido, a minha atenção recai sobre materiais que implicam ou que carregam uma memória. Gosto de me ver como um produtor de ambiguidade e de sentidos duplos, um transportador de memória. Não tenho interesse de todo pelas questões superficiais e militantes da sociologia ou política porque a arte produzida neste contexto empobrece certamente a complexidade e profundidade da sua relação com a audiência. A arte tem a ver com questões e nunca com declarações". (Pedro Cabrita Reis)

Façam da arte um terreno de novas descobertas. A criação é descoberta.
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7.8.03

"Habemus stadium!" 

Não fui à inauguração do Alvalade XXI. Não sou sócio dos Leões. Simplesmente identifico-me com o clube e o espírito sportinguista. Dos três grandes, o Sporting Clube de Portugal é aquele que me inspira sentimentos genuínos, me (co)move. O Vitória de Guimarães é o meu clube natal. O Sporting é o clube que me traz títulos. Mas não sou do SCP apenas porque como português me sinto na obrigação de comungar dos ideais de um dos três clubes de topo. Não. Sou do Sporting Clube de Portugal porque as alegrias e tristezas do clube fazem-me viver, dão-me vida.

Ontem, assisti à festa pela televisão. O ecrã deu-me uma paisagem de cores: o verde e branco do leão no relvado, o colorido das cadeiras do novo estádio, o calor humano. Os 3 - 1 frente ao Manchester United deram brilho à festa. Gostei da exibição dos jogadores. Quero que o clube ganhe em toda a lina: no campo e na gestão financeira.

Há vida para além do Sporting, há com certeza. E eu vou viver sempre ao lado do Leão.

5.8.03

A Natureza nunca perdoa 

Terramotos, cheias e incêndios são fenómenos aos quais o País está e estará indubitavelmente ligado. São os custos da nossa localização física. É certo que hoje são os incêndios que estão a flagelar o território nacional. Mas daqui a uns meses poderão ser as cheias e as intempéries. Mais dia ou menos dia, poderão ser os terramotos.

Por mais imprevisível que seja a Natureza, o homem, agente responsável pela ocupação/transformação do espaço, tem de assumir comportamentos responsáveis e equilibrados.

Acima de tudo, não podemos humanizar em desrespeito claro com a ordem natural das coisas. Porque, fazendo jus à "vox populi", Deus perdoa sempre, o homem algumas vezes, a natureza nunca... O urbanismo é suposto ser uma disciplina social ao serviço da gestão ordenada do espaço. A factura de sucessivos afrontas à natureza, através do crescimento anárquico, é paga mais cedo ou mais tarde...

As autoridades públicas (protecção civil, bombeiros, etc) não podem remediar o mal prolongado e ínter-geracional. Hoje, temos a lição de que algo está mal na Floresta portuguesa. É um pormenor a descoordenação e a falta de meios quando comparado com a essência do verdadeiro problema dos incêndios: eles existem porque ninguém limpa as matas, porque ninguém sabe a quem pertencem as matas, porque, enfim, a Lei é incumprida e não há responsabilidade pública e social. O Estado não dá o exemplo, o Estado não tem autoridade. É a impunidade geral.

Há males que vêm por bem. Oxalá consigamos fazer alguma coisa para que outros males maiores não arrasem o País. Infelizmente, somos muito teimosos e temos uma memória fraca.
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3.8.03

Mário Soares ou o marido de Maria Barroso 

Quando Mário Soares fala ao país parece que o país tem de parar. Os media deixam-se imediatamente fulminar pela eloquência do fundador do PS (há que reconhecer que Mário Soares continua a ser uma voz credível junto da opinião pública).

Em declarações à Antena 1, o ex-Presidente da República, Mário Soares, declarou que Paulo Portas é um "tumor" neste Governo e que por isso tem de ser "extirpado". Por outras palavras, Mário Soares apelou para que o primeiro-ministro Durão Barroso demita o ministro da Defesa e que o Presidente da República Jorge Sampaio actue na mesma linha.

Acontece que estas declarações vêm na sequência do caso "Cruz Vermelha Portuguesa", processo que, como todos sabemos, levou ao afastamento de Maria Barroso da instituição.

Sou um acérrimo crítico de Paulo Portas: como jornalista foi a expressão da mais abusadora e torpe informação escrita produzida em Portugal. O jornalismo do antigo director de "O Independente" ficará para sempre ligado ao homem que, sem qualquer compromisso ético, invadiu, destruiu e tentou denegrir a vida de muitas personalidades do chamado período "cavaquista". Como ministro, há a assinalar um trabalho positivo. Recordo a resolução dos problemas das Forças Armadas, que durante os últimos anos dos executivos PS, quase entraram em ruptura, ou a aprovação da Lei de Programação Militar (LPM).

Não nos podemos esquecer que nas sociedades democráticas, o poder militar está subordinado ao poder político. O ex-Chefe de Estado Maior do Exército (CEME), Silva Viegas, por mais razões que possa ter, não pode invocar a perda de confiança no ministro. Além disso, os nove generais notáveis que se juntaram na semana passada para apoiar Silva Viegas não representam o Exército português, já que se encontram na reserva (ainda que procurem manter-se activos, tanto nos manifestos como nas televisões).

Tenhamos o bom senso de perceber que há no meio disto tudo algumas tentativas de manipulação soarista. O XV Governo Constitucional tinha e tem autoridade para nomear quem bem entende para dirigir a instituição Cruz Vermelha Portuguesa. Os portugueses poderão em tempo oportuno avaliar a decisão do Governo, nesta como em todas as matérias. Será que a família Soares se julga dona exclusiva da razão?

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2.8.03

SOS Floresta  

26 372 hectares de área ardida. 8237 ocorrências de focos de incêndio. Duas vítimas mortais. 2800 homens, bombeiros, militares e populares tentam proteger os seus bens e contrariar a força do fogo. A Floresta delapida-se uma velocidade estonteante. O Estado e as autarquias não fazem prevenção. E é na prevenção, ordenação e gestão que se combatem os incêndios (prevenção não é, com o devido respeito, dar telemóveis a pastores que não sabem distinguir um "on" de um "off"). E a prevenção faz-se na Primavera, no terreno, e na planificação das situações.

Diz-se que os incêndios são na generalidade despoletados pelo homem. Conhece-se a grandeza dos interesses, imobiliários, em particular, que estão por detrás deste gravíssimo atentado contra o País. Os incendiários deveriam por isso ser punidos por crime contra a humanidade. Não apenas por fogo posto ou por atentado contra o património do Estado ou propriedade particular. A Floresta é património inter-geracional.

Longe de imaginar o combate desigual que é travado pelo bombeiro contra o fogo, sinto que este vence sempre. Porque, afinal, por cada hectare de terra ardida morre um pouco do pulmão da vida, rouba-se o habitat a espécies animais, destrói-se o que há de mais contagiante e belo naquele recanto selvagem ou relativamente humanizado.

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1.8.03

Pautas e Escola  

Há uma semana que alunos e pais desesperavam pela afixação dos resultados. 129 mil examinados de 620 escolas viram hoje finalmente afixadas as notas das provas nacionais. Não podendo falar na qualidade de pai, julgo que posso falar na qualidade de aluno.

Há sete anos atrás, em 1996, o ministério teve de dar – disse dar, literalmente - dois valores aos alunos por cada disciplina efectuada, já que o número de reprovações iria fazer com que muitos alunos não pudessem concluir o secundário ou ainda concorrer às universidades. As instituições superiores corriam o risco de ficarem vazias, tal era a tragédia. Marçal Grilo, na altura titular da pasta, decidiu que um bónus era a solução. Ainda hoje tenho dúvidas se foi a melhor solução. Era o ano zero dos exames, bem sei. A exigência foi no entanto preterida.

Hoje, seis anos volvidos do imbróglio, sinto que a Escola apresenta os mesmos problemas. Física e Matemática continuam a ser as duas disciplinas com as médias mais baixas dos exames nacionais. São os verdadeiros calcanhares de Aquiles do Ensino Secundário. Nem mesmo uma reavaliação de 2100 provas mudou alguma coisa (ainda estou por compreender todo o processo de reapreciação dos exames requerido pelo Ministério da Educação!).

Os anos passam-se, mas os problemas mantêm-se. Felizmente que já se encetaram passos positivos em diversos domínios (creio que há hoje mais transparência nas notas no ensino recorrente, por exemplo). Há, porém muito, muito mais ainda por fazer...

Os pais são quem mais sofre no meio disto tudo. Mexeu comigo o gesto daquela mãe que se dirigiu à secretaria da escola para saber o que podia fazer pela sua filha. O que podem, afinal, os pais fazerem quando o mal já está feito? O que podem os alunos e professores fazerem? E o ministério? Todos temos responsabilidades nesta matéria.

O meu desejo para este dia é que todos pensassem durante 5 minutos no significado da palavra ESCOLA. O que queremos dela? Quais as expectativas? Como fazer da escola um espaço de conhecimento e de socialização? Como aproximar todos os agentes envolvidos no processo de aprendizagem?

Boa sorte para todos os que acabaram o secundário e para os que vão concorrer ao Ensino Superior. Uma palavra de carinho e de encorajamento para os alunos que vão ter que se esforçar um pouco mais. Força, os vossos pais merecem sorrir! Eles querem apenas o vosso sucesso; aquilo que somos reflecte também o que os nossos pais nos deram. Com entrega.

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